Pular para o conteúdo

Programa de controle de sinistralidade

Sinistralidade não se reduz com uma reunião com a operadora. Se reduz com um processo de 90 dias que tem dono, dado e indicador mensal.

Atualizado em 28 de outubro de 2026 Revisão técnica: Pedro Sales Fontes citadas na página

Resposta curta

Um programa de controle de sinistralidade tem quatro etapas: levantar o dado (relatório analítico, fatura, folha), diagnosticar a concentração (por tipo de evento, prestador, beneficiário anônimo e maior caso), agir por alavanca e medir todo mês, com RH, financeiro e medicina do trabalho na mesma mesa. Acima de 80% de sinistralidade a empresa está em espiral de reajuste: cada renovação vem acima do mercado e o programa deixa de ser opção.

O que é um programa de controle de sinistralidade?

Sinistralidade é a conta mais simples do plano de saúde: custo assistencial dividido pela receita que a operadora recebeu no mesmo período. Acima de 80%, a operadora repassa o excesso no reajuste seguinte, e o reajuste seguinte eleva a receita sem reduzir o uso — a empresa entra no que chamamos de espiral de reajuste. A média do setor em 2025 foi de 81,7% (ANS, dados econômico-financeiros de 2025), o que explica por que o reajuste médio dos planos coletivos foi de 10,76% em 2025 e de 9,9% em janeiro e fevereiro de 2026 (ANS, painel de reajustes coletivos, maio de 2026).

Um programa de controle de sinistralidade é o processo que a empresa põe de pé para sair dessa conta: uma rotina com quatro etapas, um responsável por etapa e indicadores que fecham todo mês. A empresa que controla sinistralidade sabe, antes de a carta da operadora chegar, qual é o seu número, onde ele se concentra e o que está sendo feito a respeito.

As quatro etapas se organizam assim: dado (dias 1 a 30), diagnóstico (30 a 60), ações por alavanca e governança (60 a 90); depois, ciclo mensal. Para empresas de até 100 funcionários, veja como reduzir a sinistralidade do plano empresarial, que trata do básico com menos camadas.

Que dado a empresa precisa levantar nos primeiros 30 dias?

Sem o dado, o plano é opinião. Nos primeiros 30 dias o trabalho é administrativo: juntar sete documentos que a empresa já tem ou tem o direito de pedir.

DocumentoO que mostraQuem tem
Relatório analítico de utilizaçãoCusto por tipo de evento, prestador e beneficiário anônimo, por competênciaOperadora; peça por escrito
Fatura dos últimos 12 mesesVidas cobradas, valor por faixa etária, coparticipação, ajustesFinanceiro
Folha e cadastroQuem está ativo, desligado, afastado; setor e unidadeRH e DP
Contrato e quadro-resumoRegra de reajuste, gatilho de índice técnico, carência, dependentesJurídico ou RH
Memória de cálculo do último reajusteSinistralidade considerada, índice técnico e financeiroOperadora (RN ANS 509/2022)
eSocial S-2230Afastamentos e dias, por setorDP ou provedor de folha
Convenção coletiva vigenteObrigação, piso, teto de contribuição do titularRH ou sindicato patronal

Lista de insumos do programa, EvySaude, 28 de outubro de 2026. A memória de cálculo é devida pela RN ANS 509/2022; o relatório analítico, pelo contrato.

Um cuidado nessa etapa: o relatório analítico vem com beneficiário identificado por código, não por nome, e é assim que deve ficar. Quem cruza com a folha é a camada técnica, e o que sobe para a diretoria é agregado por setor.

Como pedir o relatório, o que ele precisa conter e por que o mercado o chama de "RN 507" está em relatório analítico de utilização.

Como se faz o diagnóstico, dos dias 30 a 60?

O diagnóstico responde a uma pergunta só: onde o custo se concentra? A resposta vem de quatro ângulos, sempre na mesma ordem.

  1. Por tipo de evento. Consulta, exame, pronto-socorro, internação, terapias, OPME. Os limiares que usamos para acender o alerta: terapias acima de 15% do custo, pronto-socorro acima de 12%, OPME acima de 5%. Cada um aponta para uma alavanca diferente.
  2. Por prestador. Dois hospitais com mais da metade da internação é informação de negociação, não de uso.
  3. Por beneficiário anônimo. Quantos códigos respondem por 50% e por 70% do custo. Usamos os 10, 20 e 30 maiores usuários, nunca "os 5%": com 600 vidas, 5% são 30 pessoas; com 1.200, são 60, e o indicador muda de sentido.
  4. Pelo maior caso. Um caso de alto custo pode explicar sozinho a sinistralidade do ano. Ele pede gestão de caso e, no reajuste, pede para ser tratado como evento, não como tendência.

Com os quatro ângulos lidos, dois cruzamentos fecham o diagnóstico. Composição × coparticipação: coparticipação modera consulta, exame e pronto-socorro; não modera internação. Custo por cabeça por setor: mesmo plano, custo diferente entre setores — o plano é constante, o processo de trabalho é a variável. É aqui que o diagnóstico de plano encontra o de pessoas.

Quais ações entram, por alavanca, dos dias 60 a 90?

Nenhuma ação entra sem o diagnóstico que a justifica.

AlavancaQuando entraNatureza do ganhoPrazo em que aparece
Conciliação de vidas (folha × fatura)Sempre; é a primeiraCaixa, medido0 a 90 dias
Auditoria do reajuste com memória de cálculoA cada aniversário do contratoCaixa, contenção no cicloNo ciclo
Desenho: coparticipação e contribuição do titular até o teto da CCTCusto em consulta, exame e pronto-socorroCaixa, com passivo a provisionar3 a 12 meses
Gestão de caso e crônicos identificados × acompanhadosConcentração em poucos beneficiáriosCaixa e desfecho3 a 12 meses
Porta de entrada: pronto-socorro para atenção primáriaPronto-socorro acima de 12%Moderação de uso3 a 12 meses
Convergência ocupacional: CID de afastamento × posto de trabalhoSetor fora da curvaCaixa e risco evitado12 a 24 meses
Preexistentes declaradas no prazoNa contratação ou migraçãoRisco evitadoNa contratação

Mapa de alavancas da EvySaude, revisado em 28 de outubro de 2026. Natureza e prazo são classificação de gestão, não previsão de valor.

Cada linha tem um potencial, apresentado em faixa, sob premissa declarada, com o baseline medido e o indicador que vai medir depois — são as alavancas que impactam positivamente o resultado. Como a diretoria recebe essa conta está em resultado de agir; o que já está acontecendo enquanto a decisão não sai está em custo de não agir.

Quais indicadores a diretoria acompanha todo mês, e quem senta na mesa?

Três áreas, uma reunião mensal de 40 minutos, um painel só.

  • RH responde pela conciliação de vidas, pela movimentação no prazo e pela leitura por setor.
  • Financeiro responde pela fatura, pela receita reconhecida, pela provisão e pela conta do custo total de saúde como percentual da folha.
  • Medicina do trabalho responde pelo que só ela pode ver: gestão de caso, retorno ao trabalho, nexo entre afastamento e posto. Para o RH e para a diretoria, o que ela traz é agregado.

Os indicadores do painel mensal: sinistralidade observada em janela móvel de 12 meses, por razão dos totais; concentração nos 10, 20 e 30 maiores usuários; composição por tipo de evento contra os limiares; vidas na fatura × vidas na folha; custo por cabeça por setor; afastamentos e dias por setor; e, a cada aniversário, reajuste aplicado × referência pública. Nenhum deles traz nome, CID ou prontuário.

O programa funciona quando o indicador de um mês muda a ação do mês seguinte. Painel que só registra é relatório; programa é o que faz o número virar decisão.

O que não funciona?

Três reflexos aparecem em toda empresa que recebe um reajuste alto, e a evidência diz que os três erram o alvo.

Cortar ou rebaixar o benefício. Sinistralidade é custo dividido por receita. Trocar por um plano mais barato reduz o denominador; o uso continua, e o reajuste seguinte vem maior. Além disso, o custo de produtividade ligado à saúde (afastamento, presenteísmo) é cerca de 2,3 vezes o custo médico, numa amostra de 10 empregadores e 51.648 respondentes (Loeppke et al., JOEM, 2009). Cortar o plano ataca a parte menor da conta.

Comprar um aplicativo de bem-estar. Os dois maiores ensaios randomizados sobre programas de bem-estar não encontraram efeito em gasto médico, utilização nem absenteísmo: 160 unidades e cerca de 33 mil empregados em 18 meses e depois em 3 anos (Song e Baicker, JAMA, 2019) e cerca de 5 mil pessoas em sorteio individual (Jones, Molitor e Reif, QJE, 2019). O que move custo é organização do trabalho e acompanhamento, não benefício avulso — o detalhe está em o que funciona em bem-estar.

Esperar a carta do reajuste. Quando a carta chega, a sinistralidade que a justifica já tem 12 meses. Na indústria brasileira, 41% das empresas não adotam estratégia alguma para reduzir sinistralidade (CNI). O programa existe para a empresa chegar à renovação com a memória de cálculo conferida e um plano em andamento.

Ver quem assina e como entregamos

Guia em PDF · sem custo

Guia do controle de sinistralidade

Guia em PDF para diretoria, CFO e RH: como calcular a sinistralidade, os cinco pontos que pesam, o relatório a pedir, a conciliação de vidas e o programa de 90 dias.

Receber o guia →

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para a sinistralidade cair?

Depende de onde ela se concentra. Conciliação de vidas e auditoria do reajuste aparecem no ciclo corrente. Mudança de desenho e gestão de caso aparecem entre 3 e 12 meses. Ação sobre organização do trabalho aparece na sinistralidade de 12 a 24 meses depois, porque sinistralidade é consequente: o que muda primeiro são os antecedentes, como afastamento curto e uso de pronto-socorro. Não publicamos percentual de redução: o programa entrega faixa, premissa e indicador.

Preciso trocar de operadora para controlar sinistralidade?

Não necessariamente, e muitas vezes é o contrário: trocar leva a carência, perde histórico e não muda o uso. A troca entra como alternativa quando o diagnóstico mostra preço de rede ou desenho de produto fora do mercado, e aí se faz com o dado na mão, não com a carta do reajuste na mão.

A operadora é obrigada a entregar o relatório analítico?

O que a norma obriga é o extrato pormenorizado do reajuste com memória de cálculo (RN ANS 509/2022, artigos 14 a 16). O relatório analítico de utilização costuma estar previsto no contrato e é prática de mercado em contratos com 30 vidas ou mais. Peça por escrito, por competência, com beneficiário por código.

O RH vai ver quem usa o plano?

Não. O relatório vem com beneficiário anônimo e quem cruza com a folha é a camada técnica. O que chega ao RH e à diretoria é agregado por setor, com mínimo de cinco pessoas por recorte. É regra de desenho do programa, não política de boa intenção.

Conteúdo revisado por Pedro Sales — consultor de saúde corporativa, EvySaude e ASF Corretora. Atualizado em 28 de outubro de 2026. As faixas de valor vêm de fontes públicas de mercado e servem para dimensionar orçamento; não são proposta e não substituem a análise do caso concreto.

Nesta seção

Quer saber o que falta na sua empresa?

Levantamos o que existe, o que venceu e o que falta — por estabelecimento. Comece por uma conversa no WhatsApp.